A justificativa é a parte do TCC onde você responde a uma pergunta simples, mas decisiva: por que essa pesquisa merece ser feita? Parece uma pergunta fácil, mas é justamente aqui que muitos trabalhos, mesmo com boa metodologia e resultados sólidos, perdem pontos com a banca, porque a justificativa fica genérica demais, sem convencer de fato ninguém sobre a relevância real do estudo. Isso vale tanto para pesquisas de campo quanto para revisões bibliográficas: em ambos os casos, a banca espera um argumento específico, não uma afirmação genérica sobre a importância do tema em geral.
Neste guia completo e atualizado, você vai aprender a estrutura ideal de uma justificativa (relevância social, acadêmica e prática), como conectá-la com o problema de pesquisa e os objetivos do seu TCC, um exemplo completo passo a passo, os erros mais comuns que tornam uma justificativa fraca, e como adaptar essa seção para diferentes áreas do conhecimento.
Por Que a Justificativa do TCC é Tão Importante?
A justificativa aparece logo na introdução e tem o papel de convencer a banca de que o seu estudo é relevante antes mesmo dela ler o restante do trabalho. Ela cumpre três funções ao mesmo tempo: mostra que você entende o contexto do problema escolhido, demonstra que existe uma lacuna real a ser preenchida (seja teórica, prática ou social), e estabelece a ponte entre “por que isso importa” e os objetivos que você vai apresentar a seguir.
Resumo rápido: uma boa justificativa cobre três tipos de relevância, social (impacto na sociedade), acadêmica (contribuição para a área de estudo) e prática (aplicação real do resultado), sustentada por dados, não apenas opinião. Ela deve terminar conectando naturalmente com o problema de pesquisa e os objetivos do TCC.
Estrutura Ideal para uma Justificativa de TCC
Embora não exista uma fórmula rígida na ABNT para a justificativa (diferente da formatação de referências, por exemplo), a estrutura mais aceita academicamente organiza o argumento em três camadas de relevância, geralmente nesta ordem: social, acadêmica e prática.
1. Relevância Social
Explica o impacto do tema na sociedade, num grupo específico de pessoas, numa comunidade ou num problema público mais amplo. Aqui é onde dados estatísticos, indicadores oficiais ou números de órgãos públicos e institutos de pesquisa costumam fortalecer bastante o argumento, mostrando a dimensão real do problema além da percepção pessoal do autor.
2. Relevância Acadêmica
Mostra a contribuição do seu trabalho para a área de conhecimento: existe uma lacuna na literatura (um tema pouco estudado, um contexto específico ainda não pesquisado, uma abordagem metodológica pouco explorada)? Seu TCC atualiza uma discussão com dados mais recentes? Aqui, citar autores que já discutiram o tema, e apontar especificamente o que ainda falta nessa discussão, fortalece o argumento.
3. Relevância Prática
Explica a aplicação concreta dos resultados esperados: quem vai usar essa pesquisa, e para quê? Profissionais da área, gestores públicos, uma instituição específica, outros pesquisadores? A relevância prática é o que diferencia uma justificativa “de manual” de uma justificativa que realmente convence, porque conecta a pesquisa com um uso real fora do ambiente acadêmico.
Como Conectar a Justificativa com o Problema e os Objetivos
Um erro comum é escrever a justificativa como um texto isolado, quase um “mini artigo” sobre a importância do tema em geral, sem amarração direta com o que vem a seguir na introdução. A justificativa deve funcionar como uma ponte: ela apresenta o problema (a lacuna, a dificuldade, a necessidade identificada) e prepara o terreno para o objetivo geral, que surge como resposta natural a tudo que foi argumentado. Uma forma prática de testar essa conexão: releia sua justificativa e seu objetivo geral em sequência, sem nada no meio, se o objetivo parecer “cair do céu”, sem relação clara com o que foi discutido na justificativa, é sinal de que a conexão precisa ser reforçada.
Diferença Entre Justificativa e Introdução
É comum confundir os dois, já que a justificativa normalmente é uma seção dentro da própria introdução. A introdução como um todo apresenta o tema, contextualiza o problema, traz os objetivos e explica a estrutura do trabalho. A justificativa é uma parte específica e mais estreita dentro dela, focada exclusivamente em convencer o leitor de que a pesquisa vale a pena, sem ainda apresentar objetivos ou detalhar a metodologia. Na prática, a justificativa geralmente vem depois da contextualização do tema e antes (ou imediatamente ligada a) da apresentação do problema de pesquisa e dos objetivos.
Dicas Para Escrever uma Justificativa Forte e Persuasiva
1. Utilize Dados e Estatísticas
Números concretos (de institutos de pesquisa, órgãos governamentais, associações da área) tornam o argumento muito mais forte do que afirmações genéricas como “esse tema é muito importante atualmente”. Sempre cite a fonte do dado, seguindo o mesmo padrão de citação usado no restante do trabalho.
2. Seja Claro e Objetivo
A justificativa não precisa (e não deve) ser longa ao ponto de repetir toda a fundamentação teórica que vem depois. Geralmente, entre um e dois parágrafos bem construídos por tipo de relevância (social, acadêmica, prática) já são suficientes para convencer a banca.
3. Mostre Originalidade
Deixe claro o que especificamente o seu trabalho traz de diferente: um contexto ainda não estudado, uma combinação de variáveis pouco explorada, uma atualização necessária de uma discussão antiga. Isso responde à pergunta implícita de qualquer banca: “por que mais uma pesquisa sobre esse tema?”
4. Relacione com Políticas Públicas ou Diretrizes da Área
Quando o tema se conecta a uma política pública, uma diretriz curricular, uma norma regulatória ou uma meta institucional (de saúde, educação, meio ambiente), mencionar essa conexão fortalece bastante a relevância social e prática do trabalho.
5. Cite Autores Relevantes da Área
Mostrar que outros pesquisadores já discutiram o tema (ou uma lacuna relacionada a ele) dá peso acadêmico à justificativa, mas cuidado: aqui você cita de forma pontual, para embasar a relevância, sem transformar a justificativa numa revisão de literatura completa, isso é papel da fundamentação teórica no desenvolvimento do TCC.
Justificativa do TCC: Exemplo Completo
Para tornar tudo mais concreto, veja como fica uma justificativa completa, aplicando as três camadas de relevância, para um TCC fictício sobre tecnologias assistivas no ensino de Biologia para alunos com deficiência auditiva.
Tema: A Importância das Tecnologias Assistivas no Ensino de Biologia para Alunos com Deficiência Auditiva
Relevância social: Segundo dados do último Censo Escolar, milhares de estudantes com deficiência auditiva estão matriculados na rede regular de ensino no Brasil, mas a maioria das escolas ainda não dispõe de recursos didáticos visuais adequados para o ensino de ciências. Essa lacuna compromete diretamente o direito à educação inclusiva e de qualidade garantido pela legislação brasileira.
Relevância acadêmica: Embora existam estudos sobre tecnologia assistiva na educação básica, poucos investigam especificamente sua aplicação no ensino de Biologia, disciplina rica em conceitos visuais e abstratos que podem ser especialmente desafiadores sem apoio visual estruturado. Este trabalho busca preencher essa lacuna, dialogando com autores que discutem inclusão escolar e ensino de ciências.
Relevância prática: Os resultados desta pesquisa podem orientar professores de Biologia na escolha e adaptação de recursos visuais, servir de referência para coordenações pedagógicas na formação continuada de docentes, e subsidiar gestores escolares na aquisição de materiais didáticos acessíveis.
Concluindo a Justificativa do TCC
Note que o exemplo acima termina naturalmente preparando o terreno para o objetivo geral, algo como “analisar a eficácia de recursos visuais assistivos no ensino de Biologia para estudantes com deficiência auditiva”, sem precisar de nenhuma transição forçada entre a justificativa e o restante da introdução.
Erros Mais Comuns na Justificativa do TCC
- Justificativa genérica demais: frases como “esse tema é muito relevante atualmente” sem nenhum dado ou argumento específico que sustente a afirmação.
- Confundir justificativa com revisão de literatura: transformar a seção numa lista extensa de autores e teorias, que deveria estar na fundamentação teórica, não na justificativa.
- Falta de conexão com os objetivos: a justificativa argumenta uma coisa, e o objetivo geral aparece tratando de outra, sem relação clara entre os dois.
- Ausência de dados concretos: justificar apenas com opinião pessoal, sem estatísticas, indicadores ou referências que comprovem a dimensão do problema.
- Confundir relevância pessoal com relevância acadêmica: “escolhi esse tema porque tenho interesse pessoal nele” é uma motivação válida para escolher o tema, mas não substitui a justificativa acadêmica formal, que precisa demonstrar relevância além do interesse do próprio autor.
- Justificativa desproporcionalmente longa: ocupar páginas inteiras justificando o tema, quando o padrão esperado costuma ser de um a três parágrafos bem argumentados por tipo de relevância.
Como Adaptar a Justificativa Para Diferentes Áreas
Saúde
A relevância social costuma se apoiar em indicadores epidemiológicos (prevalência de uma condição, taxas de atendimento, dados do Ministério da Saúde ou de secretarias estaduais/municipais), e a relevância prática frequentemente aponta para protocolos clínicos, capacitação de profissionais ou melhoria direta no cuidado ao paciente.
Direito e Humanas
A relevância social e acadêmica costuma se conectar a lacunas na legislação, controvérsias jurisprudenciais ou impactos sociais de uma norma específica, enquanto a relevância prática aponta para o uso da pesquisa por operadores do direito, gestores públicos ou pela própria sociedade civil.
Exatas e Engenharias
A relevância prática costuma ganhar peso extra: eficiência de um processo, economia de recursos, viabilidade técnica de uma solução. Dados de mercado, normas técnicas do setor e relatórios de órgãos reguladores fortalecem a relevância social e acadêmica dessas justificativas.
Checklist Final: Revise Sua Justificativa Antes de Entregar
☐ As três camadas de relevância estão presentes: social, acadêmica e prática
☐ Existe pelo menos um dado ou estatística sustentando a relevância social
☐ A lacuna acadêmica está claramente identificada, com referência a autores da área
☐ A aplicação prática dos resultados está explícita, com público-alvo definido
☐ A justificativa conecta naturalmente com o objetivo geral apresentado a seguir
☐ O texto tem entre um e três parágrafos por tipo de relevância, sem se transformar em revisão de literatura
Justificativa Fraca vs. Justificativa Forte: Comparação Direta
Nada explica melhor a diferença do que ver as duas versões lado a lado, para o mesmo tema:
Versão fraca: “O uso de tecnologia na educação é muito importante nos dias de hoje. Por isso, esse trabalho vai estudar como a tecnologia pode ajudar na educação de alunos com deficiência auditiva.”
Versão forte: “Segundo dados do último Censo Escolar, milhares de estudantes com deficiência auditiva estão matriculados na rede regular de ensino, mas a maioria das escolas ainda não dispõe de recursos visuais adequados para o ensino de Biologia, disciplina rica em conceitos abstratos. Essa lacuna compromete o direito à educação inclusiva garantido pela legislação vigente e, embora existam estudos sobre tecnologia assistiva na educação básica, poucos investigam sua aplicação específica no ensino de ciências.”
A diferença não está no vocabulário usado, está na presença de dados concretos, na especificidade do recorte (não “educação” em geral, mas “ensino de Biologia para alunos com deficiência auditiva”) e na conexão explícita com uma lacuna real, apontada com referência a estudos existentes.
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Falar com um especialista no WhatsAppQual a Extensão Ideal de uma Justificativa?
Não existe um número fixo de palavras definido pela ABNT, mas como referência prática: a justificativa costuma ocupar entre meia página e uma página e meia dentro da introdução, ou seja, de 3 a 5 parágrafos bem construídos, um a dois para cada tipo de relevância. Justificativas muito curtas (um único parágrafo genérico) raramente convencem; justificativas muito longas (mais de duas páginas) tendem a invadir o espaço que deveria ser da fundamentação teórica no desenvolvimento do trabalho, repetindo antecipadamente conteúdo que será desenvolvido com mais profundidade nos capítulos seguintes.
Usando Dados de Fontes Primárias na Justificativa
Prefira sempre buscar o dado estatístico na fonte primária (o próprio site do IBGE, do Ministério da Saúde, do INEP, de um instituto de pesquisa reconhecido) em vez de citar um número que você viu mencionado num blog ou numa reportagem, sem checar a fonte original. Isso além de ser mais rigoroso academicamente, evita repassar um dado desatualizado ou mal interpretado, o que pode comprometer a credibilidade de toda a justificativa se a banca decidir verificar a fonte durante a arguição.
Perguntas Frequentes Sobre a Justificativa do TCC
A justificativa pode incluir uma citação direta de outro autor?
Pode, mas com moderação. Uma citação direta curta e bem escolhida, de um autor de referência na área, pode reforçar o argumento de relevância acadêmica. O excesso de citações diretas nessa seção, porém, tende a deixar o texto menos fluido do que citações indiretas bem construídas, que integram melhor a ideia do autor ao raciocínio do próprio autor do TCC.
A justificativa muda se o TCC for feito em dupla?
O conteúdo da justificativa não muda pelo número de autores, mas vale garantir que ambos os integrantes da dupla concordem com o recorte de relevância escolhido, já que essa seção define o argumento central que os dois vão defender juntos durante a arguição final.
É normal reescrever a justificativa várias vezes até a versão final?
Sim, é bastante comum. À medida que a pesquisa avança e você lê mais sobre o tema, a lacuna acadêmica fica mais clara e específica, o que naturalmente leva a ajustes na justificativa inicial. Reescrever essa seção duas ou três vezes ao longo do processo não é sinal de que a versão anterior estava errada, é parte natural do refinamento do trabalho.
Posso justificar o TCC com base apenas em relatos de experiência própria?
Relatos de experiência (por exemplo, de um estágio ou de uma vivência profissional) podem enriquecer a justificativa, especialmente na relevância prática, mas raramente sustentam a relevância acadêmica por si só. O ideal é combinar essa experiência com dados e referências que confirmem que a situação observada representa um padrão mais amplo, e não apenas um caso isolado.
A justificativa precisa citar autores, como a fundamentação teórica?
Sim, mas de forma mais pontual. Cite autores para embasar a lacuna acadêmica ou para reforçar a relevância social do tema, sem transformar a seção numa revisão de literatura completa, isso é papel do capítulo de fundamentação teórica.
Posso usar “eu” ou primeira pessoa na justificativa?
A maioria das instituições ainda exige linguagem impessoal (evitar “eu” e “eu acho”), mesmo na justificativa. Prefira construções como “este estudo se justifica por…” ou “observa-se que…”, mantendo o tom formal e impessoal do restante do trabalho acadêmico.
Interesse pessoal pelo tema pode aparecer na justificativa?
O interesse pessoal costuma aparecer, quando permitido pela instituição, nos agradecimentos ou numa breve menção na introdução, mas não substitui a argumentação acadêmica formal da justificativa, que precisa demonstrar relevância além da motivação pessoal do autor.
A ordem social, acadêmica, prática é obrigatória?
Não é uma regra rígida da ABNT, mas é a ordem mais usada e mais lógica: parte do problema mais amplo (sociedade), passa pela lacuna de conhecimento (academia) e termina na aplicação concreta (prática). Alguns orientadores preferem outra ordem; confirme se há uma preferência específica antes de escrever.
O que fazer se meu tema não tiver dados estatísticos disponíveis?
Busque dados indiretos ou de contextos próximos (um estudo semelhante em outra região ou população), ou fortaleça a relevância acadêmica e prática, apontando a escassez de pesquisas sobre o tema como parte do próprio argumento de relevância.
Justificativa e problema de pesquisa são a mesma coisa?
Não. O problema de pesquisa é a pergunta específica que o TCC vai responder. A justificativa é o argumento que explica por que essa pergunta merece ser respondida. Costumam aparecer próximos um do outro na introdução, mas têm funções diferentes.
Posso reutilizar minha justificativa no resumo do TCC?
Pode aproveitar a essência do argumento, mas o resumo exige uma versão muito mais curta, geralmente uma frase, já que o resumo precisa caber num único parágrafo cobrindo também objetivo, metodologia, resultados e conclusão.
Segundo Exemplo: Justificativa na Área de Direito
Para reforçar como a estrutura se adapta a outras áreas, veja um segundo exemplo, agora para um TCC sobre a aplicação de medidas socioeducativas a adolescentes em conflito com a lei:
Relevância social: Dados do Levantamento Anual do Sistema Socioeducativo apontam número significativo de adolescentes cumprindo medidas socioeducativas no país, o que evidencia a urgência de políticas públicas eficazes de reinserção social nessa faixa etária.
Relevância acadêmica: A literatura jurídica sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente discute amplamente os princípios das medidas socioeducativas, mas há relativamente poucos estudos que analisam sua aplicação prática em contextos municipais específicos, o que este trabalho pretende investigar.
Relevância prática: Os resultados podem subsidiar gestores do sistema socioeducativo municipal na elaboração de políticas mais efetivas, além de servir de referência para operadores do direito que atuam diretamente na área da infância e juventude.
A Justificativa no Projeto de Pesquisa vs. no TCC Final
Muitos cursos exigem a entrega de um projeto de pesquisa (ou pré-projeto) antes do TCC final, geralmente no semestre anterior. A justificativa escrita nesse projeto é praticamente a mesma que vai para o TCC final, mas quase sempre precisa de pequenos ajustes depois: durante a execução da pesquisa, é comum que a relevância acadêmica precise ser atualizada (novos estudos podem ter sido publicados nesse meio tempo) e que a relevância prática fique mais específica, à medida que os resultados reais da pesquisa começam a se desenhar. Vale revisar a justificativa como uma das últimas etapas de revisão do TCC final, e não assumir que a versão do projeto inicial ainda está 100% atualizada.
Como a Justificativa Aparece na Apresentação Oral
Na defesa, a justificativa costuma ser resumida a um ou dois slides, geralmente combinando a relevância social (com um dado de impacto forte) com uma frase objetiva sobre a lacuna acadêmica. É um dos momentos da apresentação onde um dado estatístico bem escolhido, mostrado visualmente (gráfico ou número em destaque), comunica mais rápido do que um parágrafo inteiro lido em voz alta.
Palavras e Expressões Que Fortalecem (ou Fragilizam) uma Justificativa
A escolha de palavras também comunica o nível de rigor do argumento. Algumas expressões tendem a fragilizar a justificativa, por serem vagas ou subjetivas demais:
- “É de extrema importância…” (sem explicar por quê)
- “Sabe-se que…” (sem indicar quem sabe, ou com base em quê)
- “Um assunto muito discutido atualmente…” (sem mostrar onde ou por quem)
- “Sempre me interessei por esse tema…” (motivação pessoal, não relevância acadêmica)
Em contrapartida, expressões que ancoram o argumento em evidência tendem a fortalecer a justificativa:
- “Segundo dados do [instituto/órgão], [dado específico]…”
- “Estudos anteriores (AUTOR, ano; AUTOR, ano) identificaram [lacuna específica], mas ainda não investigaram [seu recorte específico]…”
- “Esse cenário impacta diretamente [grupo específico], uma vez que [consequência concreta]…”
Justificativa em Pesquisa Quantitativa vs. Qualitativa
Em pesquisas quantitativas, a justificativa tende a se apoiar mais fortemente em números e indicadores estatísticos, já que o próprio desenho da pesquisa busca medir e generalizar um fenômeno. Em pesquisas qualitativas, a justificativa costuma equilibrar dados quantitativos de contexto (para mostrar a dimensão do problema) com a defesa da abordagem qualitativa em si, explicando por que compreender significados, percepções ou experiências específicas de um grupo é mais adequado para responder àquele problema do que uma abordagem puramente numérica.
Como a Banca Avalia a Justificativa na Prática
Durante a arguição, é comum a banca fazer uma pergunta direta sobre a justificativa, algo como “por que esse tema é relevante para além do seu interesse pessoal?” ou “que dado concreto sustenta essa afirmação de relevância social?”. Estar preparado para responder essas perguntas de forma objetiva, com o mesmo dado ou argumento já presente no texto escrito (e não uma justificativa nova, criada na hora), reforça a consistência entre o trabalho escrito e a defesa oral, um dos pontos que bancas costumam valorizar bastante na avaliação final.
De Uma Pergunta de Pesquisa Fraca a uma Justificativa Forte
Às vezes a justificativa fica fraca não por falta de habilidade de escrita, mas porque o próprio recorte do tema ainda está genérico demais. Se você está com dificuldade de justificar o tema de forma específica, um exercício útil é reduzir o escopo: em vez de “tecnologia na educação”, tente “uso de aplicativos de gamificação no ensino de matemática para o 6º ano”; em vez de “saúde mental de jovens”, tente “impacto do uso excessivo de redes sociais na ansiedade de estudantes do ensino médio de uma escola específica”. Temas mais específicos naturalmente geram justificativas mais fortes, porque ficam mais fáceis de ancorar em dados concretos e em lacunas acadêmicas bem definidas.
Justificativa e Viabilidade: Um Cuidado Que Poucos Mencionam
Além de justificar por que o tema é relevante, vale considerar (mesmo que não escrito explicitamente na seção) se a pesquisa é viável dentro do tempo e dos recursos disponíveis para um TCC de graduação. Um tema extremamente relevante, mas que exigiria acesso a uma população difícil de alcançar, um orçamento inviável ou um prazo maior do que o cronograma acadêmico permite, pode gerar uma justificativa forte no papel, mas um projeto de pesquisa impossível de executar dentro do tempo do curso. Ao escolher e justificar o tema, vale a pena testar mentalmente, ou conversar com o orientador, se a relevância apontada é compatível com o que de fato é possível pesquisar no prazo disponível.
Justificativa em Trabalhos de Revisão Bibliográfica
Quando o TCC é uma revisão de literatura (sem coleta de dados em campo), a relevância acadêmica ganha peso ainda maior na justificativa, já que o próprio objetivo do trabalho é organizar, sintetizar ou atualizar o conhecimento já publicado sobre um tema. Nesses casos, é comum justificar apontando a dispersão da literatura existente (estudos publicados em veículos diferentes, com metodologias diferentes, sem uma síntese recente) como a lacuna específica que o TCC pretende resolver, reunindo e organizando esse conhecimento de forma acessível para outros pesquisadores e profissionais da área.
Revisando a Justificativa Depois de Pronta: Um Teste Simples
Depois de escrever a justificativa, um teste rápido e eficaz é mostrá-la (ou lê-la em voz alta) para alguém de fora da sua área de estudo. Se essa pessoa conseguir entender, em poucas frases, por que aquele tema importa, mesmo sem conhecimento técnico prévio sobre o assunto, é sinal de que a justificativa está clara e bem construída. Se a pessoa terminar a leitura sem entender a relevância real do trabalho, ou achar o texto vago demais, isso costuma indicar que a justificativa ainda depende demais de jargão técnico ou de afirmações genéricas, sem argumento concreto o suficiente para convencer alguém de fora da área, como costuma ser parte da banca examinadora.
Justificativa e Ineditismo: O TCC Precisa Ser Totalmente Original?
Uma dúvida frequente é se o tema do TCC precisa ser completamente inédito, algo que nunca foi pesquisado antes. Na maioria dos cursos de graduação, não. O que se espera é originalidade no recorte: um contexto específico (uma escola, uma empresa, uma região), uma combinação de variáveis ainda não estudada junto, ou uma atualização necessária de uma discussão mais antiga com dados recentes. É perfeitamente aceitável, e até esperado, que o tema geral já tenha sido estudado por outros pesquisadores, desde que a justificativa deixe claro o que especificamente esse TCC acrescenta que os trabalhos anteriores ainda não cobriram.
Quando Revisar a Justificativa Durante o Processo de Escrita
Assim como a introdução completa, a justificativa se beneficia de uma revisão final depois que o restante do TCC já está pronto, não apenas uma revisão logo depois de escrita. Isso porque, ao longo da pesquisa, é comum que o foco do trabalho se ajuste ligeiramente, um recorte que parecia central no início pode ganhar menos espaço no desenvolvimento, enquanto outro aspecto, secundário a princípio, se torna mais relevante nos resultados. Revisar a justificativa como uma das últimas etapas garante que ela continue coerente com o TCC que de fato foi produzido, e não apenas com o planejamento inicial da pesquisa.
Conclusão
Uma justificativa forte não precisa ser longa nem rebuscada, precisa ser específica, apoiada em dados reais e conectada com naturalidade ao problema e aos objetivos que vêm a seguir. Cubra as três camadas de relevância, social, acadêmica e prática, revise se a conexão com o objetivo geral está clara, e evite transformar essa seção numa revisão de literatura antecipada. Combinado com uma boa estrutura de TCC, a justificativa bem escrita já resolve boa parte da primeira impressão que a banca terá do seu trabalho, antes mesmo da leitura do primeiro capítulo de desenvolvimento.
Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14724: informação e documentação – trabalhos acadêmicos – apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 24. ed. São Paulo: Cortez, 2016.
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